Terapia Manual

DTM e Dor na Mandíbula: Causas, Sintomas e Tratamento com Fisioterapia

Dor na mandíbula, estalos ou dificuldade para abrir a boca? Pode ser DTM. Entenda as causas e como a fisioterapia pode ajudar no tratamento.

Por Milena Aranha ·

A dor que muitos ignoram

Dor ao mastigar. Estalos ao abrir a boca. Travamento da mandíbula. Dor de cabeça que não passa. Dor no ouvido sem infecção. Esses sintomas são muito mais comuns do que se imagina — e, na maioria dos casos, apontam para uma condição chamada disfunção temporomandibular (DTM).

A DTM afeta entre 5% e 12% da população adulta, sendo duas vezes mais comum em mulheres do que em homens, com pico de incidência entre 20 e 40 anos. Apesar de sua alta prevalência, muitas pessoas convivem com os sintomas por anos sem buscar tratamento — seja porque acreditam que estalos são “normais”, seja porque não sabem que a fisioterapia pode ajudar.

A boa notícia: a grande maioria dos casos de DTM responde bem ao tratamento conservador, sem necessidade de cirurgia ou procedimentos invasivos.

O que é a ATM?

A articulação temporomandibular (ATM) é a articulação que conecta a mandíbula ao crânio. Você tem duas — uma de cada lado do rosto, logo à frente dos ouvidos. Coloque os dedos nessa região e abra a boca: você sentirá o movimento.

A ATM é uma das articulações mais complexas do corpo:

  • Movimento de dobradiça (rotação): nos primeiros graus de abertura da boca
  • Movimento de deslizamento (translação): o côndilo mandibular desliza para frente na abertura ampla
  • Disco articular: uma estrutura fibrocartilaginosa localizada entre o côndilo e a fossa temporal, que amortece e guia o movimento

A ATM trabalha intensamente: mastigamos, falamos, bocejamos, engolimos — são milhares de movimentos por dia.

O que é DTM?

DTM (Disfunção Temporomandibular) é um termo guarda-chuva que engloba diversas condições que afetam a ATM, os músculos mastigatórios e as estruturas associadas. As principais categorias:

DTM muscular (miálgica)

A forma mais comum. A dor se origina nos músculos mastigatórios — masseter, temporal, pterigóideos — que se tornam tensos, doloridos e com pontos-gatilho. É frequentemente associada a apertamento dentário (bruxismo), estresse e tensão muscular generalizada.

DTM articular

Envolve alterações na própria articulação:

  • Deslocamento do disco articular: o disco pode se deslocar da sua posição normal, causando estalos (quando reduz) ou travamento (quando não reduz). É a causa mais comum de estalos na mandíbula
  • Artralgia: dor articular por inflamação ou sobrecarga
  • Alterações degenerativas: artrose da ATM, mais comum em idades avançadas

DTM mista

Combina componentes musculares e articulares — a apresentação mais frequente na prática clínica.

Sintomas de DTM

A DTM pode se manifestar de diversas formas:

  • Dor na mandíbula: na região da ATM (à frente do ouvido) e/ou nos músculos mastigatórios
  • Estalos ou crepitação: sons durante a abertura ou fechamento da boca
  • Limitação de abertura: dificuldade para abrir a boca completamente
  • Travamento: a mandíbula “trava” aberta ou fechada
  • Dor de cabeça: especialmente na região temporal (acima das orelhas), que pode ser confundida com cefaleia tensional
  • Dor de ouvido: sem infecção otológica — a proximidade da ATM com o ouvido explica essa dor referida
  • Dor facial: que pode irradiar para bochechas, olhos e dentes
  • Tensão cervical: a dor na mandíbula frequentemente se associa a dor cervical
  • Zumbido (tinnitus): alguns pacientes relatam zumbido associado à DTM

Um ponto importante: muitos desses sintomas podem ter outras causas. A avaliação profissional é essencial para confirmar que se trata de DTM.

Causas e fatores contribuintes

A DTM é multifatorial — raramente há uma causa única. Os fatores mais relevantes:

Bruxismo e apertamento

O hábito de ranger os dentes (bruxismo) ou apertá-los (clenching) é um dos fatores mais associados à DTM. Pode ocorrer durante o sono (bruxismo do sono) ou durante o dia (apertamento em vigília). O estresse emocional é o principal gatilho.

Estresse e fatores emocionais

O estresse aumenta a tensão muscular generalizada — inclusive nos músculos mastigatórios. Pessoas sob estresse crônico tendem a apertar a mandíbula sem perceber, especialmente durante o trabalho ou ao usar o celular. Ansiedade e depressão também estão fortemente associadas à DTM.

Hábitos parafuncionais

Comportamentos repetitivos que sobrecarregam a ATM:

  • Mascar chiclete por longos períodos
  • Roer unhas
  • Morder objetos (canetas, tampas)
  • Apoiar a mandíbula na mão por longos períodos
  • Morder o lábio ou a bochecha

Fatores cervicais

A coluna cervical e a mandíbula estão anatomicamente e funcionalmente conectadas. Disfunções na cervical — tensão muscular, rigidez articular — podem contribuir para a DTM e vice-versa. Essa relação é tão estreita que muitos fisioterapeutas avaliam cervical e mandíbula em conjunto.

Fatores oclusais (mordida)

Historicamente, a “mordida desalinhada” foi considerada a principal causa de DTM. A ciência atual mostra que alterações oclusais têm papel muito menor do que se acreditava. A maioria das variações de mordida é tolerada sem problemas pela ATM. Tratamentos ortodônticos ou ajustes oclusais para “corrigir” a mordida como tratamento de DTM não são recomendados pelas diretrizes atuais.

Trauma

Traumas diretos na mandíbula (acidentes, impactos em esportes) ou indiretos (intubação prolongada, procedimentos dentários longos com abertura de boca sustentada) podem desencadear DTM.

Mitos sobre DTM

”Estalos na mandíbula são perigosos”

Estalos na ATM são extremamente comuns — presente em até 30-40% da população. Na maioria dos casos, estalos sem dor são benignos e não necessitam de tratamento. Eles geralmente são causados pelo deslocamento e redução do disco articular, e não indicam progressão para condições mais graves.

”Preciso de cirurgia na mandíbula”

A cirurgia para DTM é indicada em menos de 5% dos casos. A grande maioria responde bem ao tratamento conservador. As indicações cirúrgicas são restritas a: travamento persistente que não responde ao tratamento conservador, patologias articulares específicas (anquilose, tumores) e dor articular refratária após esgotamento das opções conservadoras.

”Minha mordida está causando a DTM”

A ciência não sustenta a ideia de que alterações oclusais sejam a causa principal da DTM. Tratamentos irreversíveis para “corrigir” a mordida — como desgaste dentário, coroas ou ortodontia — não são recomendados como tratamento de DTM. A mandíbula é uma articulação que se adapta à mordida, não o contrário.

”DTM não tem tratamento”

DTM tem tratamento — e a maioria dos pacientes melhora significativamente. Estudos mostram que 85% dos pacientes com DTM melhoram com tratamento conservador. A chave é uma abordagem multimodal que combine exercícios, educação, terapia manual e modificação de hábitos.

Tratamento fisioterapêutico

A fisioterapia é uma das intervenções mais eficazes para DTM, especialmente a de origem muscular. O tratamento envolve:

Exercícios terapêuticos

  • Exercícios de mobilidade: abertura controlada da boca, movimentos laterais e protrusivos — para restaurar a amplitude de movimento
  • Exercícios de estabilização: controle da mandíbula em posição de repouso, resistência suave à abertura e fechamento — para melhorar o controle motor
  • Exercícios de coordenação: treinamento de abertura simétrica e controlada, especialmente quando há desvio mandibular
  • Exercícios cervicais: fortalecimento e mobilidade da cervical, que frequentemente contribui para a DTM

Terapia manual

  • Liberação miofascial dos músculos mastigatórios (masseter, temporal, pterigóideos) — intra e extra-oral
  • Mobilização articular da ATM para melhorar a mobilidade quando há restrição
  • Quiropraxia e mobilização da coluna cervical — para tratar o componente cervical da DTM
  • Liberação de pontos-gatilho na musculatura mastigatória e cervical

Educação e modificação de hábitos

  • Consciência do apertamento: aprender a identificar quando você está apertando os dentes durante o dia. Dica: em posição de repouso, os dentes não devem se tocar — a posição ideal é “lábios juntos, dentes separados, língua no céu da boca”
  • Técnicas de relaxamento: exercícios de respiração diafragmática, relaxamento progressivo da musculatura facial
  • Modificação de hábitos parafuncionais: reduzir chiclete, parar de roer unhas, evitar apoiar a mandíbula na mão
  • Gerenciamento do estresse: estratégias para reduzir a tensão geral, que se reflete na mandíbula

Educação em dor

Em casos crônicos, onde há sensibilização central, a educação em neurociência da dor é fundamental para ajudar o paciente a entender seus sintomas, reduzir o medo e desenvolver estratégias de autogerenciamento.

A importância da abordagem multiprofissional

A DTM frequentemente se beneficia de uma abordagem que envolve múltiplos profissionais:

  • Fisioterapeuta: exercícios, terapia manual, educação
  • Dentista/especialista em DTM: avaliação oclusal, placa de mordida (quando indicada), orientações odontológicas
  • Psicólogo: manejo do estresse, ansiedade e hábitos associados ao bruxismo
  • Médico: quando necessário para investigação de diagnósticos diferenciais ou prescrição medicamentosa

A placa de mordida (placa oclusal ou miorrelaxante), prescrita pelo dentista, pode complementar o tratamento ao proteger os dentes e reduzir a atividade muscular durante o sono. Ela funciona melhor quando associada à fisioterapia e à modificação de hábitos.

Tratamento de DTM em Maringá

Se você sente dor na mandíbula, estalos que incomodam, dores de cabeça frequentes ou tensão cervical associada, a avaliação fisioterapêutica pode identificar se a DTM é a causa e iniciar um plano de tratamento individualizado.

O atendimento inclui avaliação detalhada da ATM e cervical, exercícios específicos, liberação miofascial da musculatura mastigatória, quiropraxia cervical e orientação sobre hábitos que mantêm a dor. Conheça nosso atendimento.

Perguntas frequentes

DTM tem cura?

A maioria dos casos de DTM melhora significativamente com tratamento conservador. Estudos mostram que cerca de 85% dos pacientes apresentam melhora importante dos sintomas. “Cura” no sentido de eliminação completa e permanente dos sintomas é possível em muitos casos, especialmente quando os fatores contribuintes (estresse, hábitos, fraqueza muscular) são identificados e gerenciados.

Estalos na mandíbula precisam de tratamento?

Se não há dor ou limitação funcional, estalos na mandíbula geralmente não necessitam de tratamento. São muito comuns na população e, na maioria dos casos, benignos. Porém, se os estalos vierem acompanhados de dor, travamento, dificuldade para mastigar ou piora progressiva, é recomendável procurar avaliação.

Placa de mordida resolve DTM?

A placa de mordida pode ajudar — especialmente para proteger os dentes em casos de bruxismo e reduzir a carga sobre a ATM durante o sono. Porém, a placa sozinha não resolve a DTM. Ela funciona melhor como complemento ao exercício, à terapia manual e à modificação de hábitos. Estudos mostram que a combinação de placa + fisioterapia é superior à placa isolada.

DTM pode causar dor de cabeça?

Sim. A cefaleia associada à DTM é muito comum e frequentemente confundida com cefaleia tensional ou enxaqueca. A tensão nos músculos mastigatórios — especialmente o temporal — gera dor referida na região da cabeça. Tratar a DTM pode reduzir significativamente a frequência e a intensidade das dores de cabeça.

Existe relação entre DTM e dor cervical?

Sim, uma relação forte. A mandíbula e a coluna cervical compartilham conexões musculares, neurais e funcionais. Até 70% dos pacientes com DTM também apresentam dor cervical, e vice-versa. Por isso, a avaliação e o tratamento integrado de ATM e cervical produzem melhores resultados.

Bruxismo do sono pode ser tratado?

O bruxismo do sono é difícil de eliminar completamente, pois ocorre de forma inconsciente. A placa de mordida protege os dentes e pode reduzir a atividade muscular. A fisioterapia ajuda a manejar as consequências musculares (dor, tensão). O gerenciamento do estresse e a higiene do sono são complementos importantes. O objetivo é minimizar o impacto do bruxismo, não necessariamente eliminá-lo.


Se você convive com dor na mandíbula, estalos ou dores de cabeça frequentes, agende sua avaliação. A DTM tem tratamento — e quanto antes começar, melhor.

Grandes evoluções começam com pequenos movimentos.

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Escrito por Milena Aranha

Fisioterapeuta, Mestre em Promoção da Saúde e pesquisadora visitante na Universidad de Salamanca (Espanha). Especialista em dor crônica e terapia manual.

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